Lavagem da escadaria da Catedral: conheça a história da cerimônia que virou patrimônio de Campinas
04/04/2026
(Foto: Reprodução) Cerimônia tradicional marca o sábado santo e reforça o combate à intolerância religiosa
Há 41 anos, a agressão contra uma gari de Campinas (SP) que professava a própria fé por meio de um fio de conta no pescoço se transformou em uma das cerimônias religiosas mais tradicionais de Campinas.
A lavagem da escadaria da Catedral Metropolitana, que se tornou patrimônio imaterial da cidade em 2022, ocorreu neste sábado (4).
A história da cerimônia, no entanto, começou muito antes. Nengua Dya Nikisi, a Mãe Dango, trabalhava na limpeza urbana quando foi agredida em frente à Catedral Metropolitana de Campinas. À época, estava com um ano de iniciação no Candomblé.
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"Eu estava com meu fio de conta e fui xingada de feiticeira, maldita, um monte de nome. Eu fiquei muito brava e me machuquei", conta Nikisi.
A vítima dividiu a dor da experiência com as companheiras. Uma delas, Mameto Oya Corajacy, refletiu. "Quando eu encontro com a Dona Jaci e conto isso, ela fala: 'mãe, vamos fazer alguma coisa?'. Mas fazer o quê?"
"Vamos fazer a lavagem da escadaria, porque só tem lá na Igreja do Bonfim [de Salvador (BA)]. Vamos trazer. E era na época de chegar a quaresma, por isso que é no Sábado de Aleluia", resumiu Mãe Dango.
Corajacy afirma que a ideia também serviu de retribuição para a receptividade do campineiro: "Eu achei que devia trazer essa lavagem presenteando as pessoas de Campinas. Uma troca por eu ser bem recebida aqui nessa cidade".
Vida, purificação e esperança
Mãe Dango tem relação próxima com a origem da cerimônia de lavagem da escadaria da Catedral de Campinas
Reprodução/EPTV
O ritual é uma tradição das comunidades do Candomblé e de outras religiões de matriz africana para honrar a memória do povo Bantus, etnia da qual a maioria dos negros escravizados trazidos ao Brasil fazia parte.
Na escadaria, os religiosos derramam água de cheiro "aos pés de Nossa Senhora da Conceição" e esfregam cada degrau com vassouras.
"Além da questão religiosa, a lavagem agrega um momento de muita fé e também a questão da cultura popular", detalha Mãe Dango.
Segundo ela, as flores brancas e a água têm significado importante. "Quando você recebe uma flor, é porque a pessoa quer que você brote as coisas boas que têm dentro de você. A flor é a vida, a água é o nosso nascimento, as energias, que são as pembas, representam o fogo da purificação, e o ar são as cantigas de fé e esperança".
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Resistência de escravizados
Ato simboliza a resistência de escravizados e representa vida, purificação e esperança.
Firmino Piton/Secretaria de Cultura e Turismo de Campinas
A cerimônia, que agrega diversas religiões e é celebrada em um espaço tradicionalmente católico, teve o local escolhido também para valorizar a revolta de escravizados em Campinas.
O cortejo sai da Estação Cultura e segue até a Rua 13 de Maio, onde chegam à praça da Catedral.
"Como ali teve uma revolta de escravos com a polícia, então a gente desce para fazer os 500 anos de libertação", explica Mãe Dango.
Ela lembra que Campinas é conhecida por ter sido a última cidade a abolir, na prática, a escravidão.
Relembre, nas fotos abaixo, como foi a celebração de 40 anos da cerimônia.
40 anos do ritual de lavagem da escadaria da Catedral de Campinas (SP)
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